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segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Occupy Wall Street redescobre a imaginação radical

Os jovens que protestam em Wall Street e além rejeitam esta ordem económica vã. Eles vieram para resgatar o futuro. Artigo de David Graeber, publicado no jornal britânico Guardian.
Occupy Wall Street, 26 de Setembro de 2011, Foto de PaulS/Flickr
Occupy Wall Street, 26 de Setembro de 2011, Foto de PaulS/Flickr
Por que as pessoas estão a ocupar Wall Street? Por que a ocupação — apesar da mais recente repressão policial — espalhou fagulhas através dos Estados Unidos, inspirando em alguns dias centenas de pessoas a mandar pizzas, dinheiro, equipamento e, agora, a começar os seus próprios movimentos chamados OccupyChicago, OccupyFlorida, Occupy Denver ou Occupy LA?
Existem razões óbvias. Estamos a ver o começo de uma desafiadora auto-afirmação de uma nova geração de norte-americanos, uma geração que está a ver um futuro de educação sem emprego, sem futuro, mas sob o peso de uma dívida enorme e sem perdão. A maioria, descobri, é da classe trabalhadora ou de origem modesta, meninos e meninas que fizeram tudo o que lhes foi recomendado: estudaram, entraram na faculdade, e agora não apenas estão a ser punidos, mas humilhados — diante da perspectiva de serem tratados como zeros à esquerda, moralmente reprovados.

É realmente surpreendente que eles gostariam de trocar uma palavra com os magnatas 
financeiros que roubaram o seu futuro?
Assim como na Europa, estamos a ver o resultado colossal de um fracasso. Os ocupantes são pessoas cheias de ideias, cujas energias uma sociedade saudável deveria aproveitar para melhorar a vida de todos. Em vez disso, elas estão a usar a energia em busca de ideias para derrubar todo o sistema.
Mas o fracasso maior aqui é da imaginação. O que estamos a testemunhar pode ser também uma reivindicação para finalmente ter um debate que todos nós supostamente deveríamos ter tido em 2008. Aquele era o momento, depois do quase-colapso da arquitectura financeira do mundo, em que qualquer coisa parecia possível.
Tudo o que nos tinha sido dito nas décadas anteriores provou-se mentira. Os mercados não eram auto-reguláveis; os criadores de instrumentos financeiros não eram génios infalíveis; e as dívidas não tinham de ser verdadeiramente pagas — na verdade, o dinheiro em si mostrou-se um instrumento político, triliões de dólares podendo ser inventados durante a noite quando os bancos centrais ou governos assim quisessem. Mesmo a [revista britânica] Economist deu manchetes como “Capitalismo: Foi uma boa ideia?”.
Parecia o tempo para repensar tudo: a própria natureza dos mercados, do dinheiro, da dívida; de se perguntar para que serve uma ‘economia’. Isso durou talvez duas semanas. Então, numa das mais colossais faltas de coragem histórica, nós todos, colectivamente, colocamos as nossas mãos sobre as orelhas e tratámos de tentar colocar as coisas o mais próximas do que tinham sido antes.
Talvez não seja surpreendente. Está a tornar-se crescentemente óbvio que a verdadeira prioridade daqueles que dirigiram o mundo nas últimas décadas não era criar uma forma viável de capitalismo, mas, em vez disso, convencer-nos de que a actual forma de capitalismo é a única forma possível de sistema económico, e que os seus defeitos, portanto, são irrelevantes. Desta forma, todos assistimos sentados enquanto o aparato desaba.
O que aprendemos agora é que a crise económica dos anos 70 na verdade nunca acabou. Foi superada com crédito barato e pilhagem maciça no Exterior — esta última, de nome “crise da dívida do Terceiro Mundo”. Mas o sul global lutou de volta. O movimento de ‘alter-globalização’ foi, no fim das contas, bem sucedido: o Fundo Monetário Internacional foi expulso do Leste da Ásia e da América Latina, assim como agora está a ser expulso do Médio Oriente. Como resultado, a crise da dívida chegou à Europa e à América do Norte, repleta do mesmo tipo de solução: declarar uma crise financeira, indicar tecnocratas supostamente neutros para geri-la e em seguida lançar-se numa orgia de pilhagem em nome da ‘austeridade’.
A forma de resistência que emergiu parece marcadamente similar ao velho movimento de justiça global, também: vemos a rejeição da antiga política partidária, a adopção da mesma diversidade radical, a mesma ênfase em inventar novas formas de democracia de baixo para cima. O que é diferente é o alvo: se em 2000 os protestos eram dirigidos ao poder das novas burocracias planetárias sem precedentes (Organização Mundial do Comércio, FMI, Banco Mundial, Nafta), instituições que não prestavam contas democraticamente, que existem apenas para servir os interesses do capital transnacional; agora, é contra toda a classe política de países como a Grécia, a Espanha e agora, os Estados Unidos — exactamente pelas mesmas razões. É por isso que os manifestantes têm hesitado em fazer reivindicações formais, já que isso significa o reconhecimento implícito dos políticos contra os quais eles se revoltam.
Quando a história for finalmente escrita, no entanto, é provável que todo este tumulto — começando com a Primavera árabe — seja lembrado como o tiro de partida de uma onda de negociações sobre a dissolução do Império Norte-Americano. Trinta anos de insistente prioridade na propaganda em vez da substância, de apagar qualquer coisa que pudesse parecer base política de uma oposição, pode fazer parecer aos jovens manifestantes que as suas perspectivas são sombrias; e está claro que os ricos estão determinados a garantir uma fatia tão grande quanto possível das sobras, lançando uma geração inteira de jovens aos lobos para garantir isso; mas a História não está do lado deles.
Talvez seja bom considerarmos as consequências do colapso dos impérios coloniais europeus. Não levou ao sucesso dos ricos em agarrar toda a comida disponível, mas à criação do estado de bem-estar social. Não sabemos exactamente o que vai acontecer agora. Mas se os ocupantes finalmente conseguirem romper o controle exercido durante 30 anos sobre a imaginação humana, como aconteceu nas primeiras semanas depois de Setembro de 2008, tudo vai novamente estar em jogo — e os manifestantes de Wall Street e de outras cidades dos Estados Unidos terão feito por nós o maior dos favores.
Artigo de David Graeber, antropólogo norte-americano e activista político, publicado no jornal britânico Guardian, traduzido para português pelo site viomundo.com.br

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